Estamos vivendo num período de coisificação de quase tudo. E isso não começou agora. Desde o início do século passado, segundo Franz Kafka, o mundo vem se desenvolvendo muito mais na linha da racionalidade materialista do que na busca de humanização. E a repercussão de tudo isso tem vetores claros na formação da personalidade humana, nos valores das sociedades, crenças, bem como dos paradigmas, que vem se transformando cada vez mais rapidamente.
Quando estudamos psicanálise, a tangibilidade do conteúdo é reforçada pelas experiências vividas pelo leitor/estudante/neófito. E isso remonta as próprias vivências quanto também a observação de atores que durante toda a vida nos proporcionam aprendizado e grande observação.
A coisificação a que me refiro pode ter etiologia variada. Mas, veja, no início do século passado, o modo de produção teve um grande impulso com surgimento de máquinas para dar suporte à mecanização e racionalização do trabalho nas indústrias. E tudo o mais se seguiu – e segue até hoje – a lógica tayloriana de racionalização e mecanização. Até na família, como já relatou tantas vezes Augusto Cury em sua série de análise da personalidade humana, focando em Jesus um modelo diferente e que ainda não teve tantos adeptos praticantes como poderia ter (e deveria, como eu vejo).
Nesse contexto, com o aumento da população, maior demanda de alimentos, produtos, serviços e … racionalização, somos tratados sempre como um fator médio. O feijão enlatado segue o gosto da quantidade média de pessoas. Se a maioria gosta mais salgado, será, pela média, mais salgado. Quem não gosta de muito sal vai detestar. Mas, também, quem mandou estar fora da média ? A média virou a coisa a ser vendida.
Esse raciocínio vale para roupas, para automóveis, para remédios, para serviços dos mais variados tipos e para comportamentos também. É ! Se você não gosta da coisa que a maioria das pessoas gosta (e que formam a média), você ou está fora ou deve modificar seus hábitos e comportamentos. O ex-deputado federal e candidato à presidência da república, Enéias Carneiro (chamado Dr. Eneías ou, meu nome é Enéias), dizia que a estatística era uma técnica ou ciência da qual não via muito sentido porque era exclusivista por um lado e generalista indevidamente. Ele exemplificava que, num país com 1 milhão de habitantes, que consome 5 milhões de frango por ano, dizia-se que cada um consumia em média cinco frangos por ano. Porém, para os habitantes do país que não consumiam frango algum, essa era uma afirmativa falaciosa. É a pessoa se transformando em média. Também um tipo de coisificação.
Poderia mencionar exemplos diversos de coisificação, inclusive a numerização das pessoas. Há muitos anos somos, para o fisco e para uma centena de milhões de empresas, apenas um número. Esse número não nos distingue. Ele nos identifica como consumidor, como pagador de impostos, como contraventor, como trabalhador, como desempregado, etc. Quer coisa mais coisificada que ser referenciado como número e não como nome ?
E daí por diante, a perda de referência é inevitável. Segundo Zigmmund Baumman, em Tempos Líquidos, nossa atual contemporaneidade, também chamada pós modernidade, apresenta uma coisificação diferente: somos coisas líquidas. É, naturalmente, uma metáfora ligada à mecânica dos fluidos, na qual percebe-se que não conseguimos segurar a coisa que, líquida, se esvai perante nossos dedos da mão. E o trabalho é líquido, as relações pessoais são líquidas, os casamentos são líquidos e até o sexo é líquido.
Sim, tratado como casual, como uma simples forma de satisfação e busca do êxtase, o sexo não é mais um complemente do sentimento de afetividade que os casais mantinham. Não, o sexo é aleatório, casual, do jeito que imaginamos ser, de como queremos parecer ser, além de ser uma válvula de escape para o hipotético recalcamento de questões relacionadas com dificuldade psíquicas , que podem ser “também” sexuais, mas, não só e não necessariamente assim identificadas. Fica o sexo pelo sexo: pronto, já gozei !…
O consumismo, portanto, chegou ao sexo. Queremos (generalização é natural) consumir sexo como quem consome batata frita. E também nos preparar e nos dotar fisicamente ou em forma de imagem para um sexo que pode não ser exatamente o que queremos mais em determinada época da vida. Arnaldo Jabour menciona em uma de suas crônicas que o brasileiro médio (olha a média aí novamente), está buscando esculpir o corpo na busca de se mostrar mais atraente (a) sexualmente. E conclui que as mulheres passam a ficar siliconadas, com peitos enormes e duros, bundas também esculpidas, corpo cheio de plásticas e o homem, por sua vez, com bíceps cada vez desenvolvidos, pênis enormes, mas, com tanto anabolizante e drogas alopáticas que, mais rapidamente que o tempo vinha mostrando, não saberão para que servem todas essas “coisas”.
Temos estudado e constatado neuroses, psicoses e perversões de diferentes tipos e intensidades. Mas, será que a coisificação do sexo, em que pese a generalização – principalmente no ocidente, mas, não só – bem como a busca de dar outra definição ou conotação ao gostoso ato de gozo, materializando-o como busca de decodificação de frustração percebida (ou não), não seria também um novo segmento a ser categorizado ?
