No ano de dois mil e dois, resolvi parar de fumar. Meus filhos, pequenos, me cobravam muito que eu parasse com “isso” e eu resolvi aderir. Fumava havia 22 anos, muito tempo. Procurei uma médica conhecida, confidenciei a ela o desejo de parar e ela me disse: tenho a solução exata pra você ! Surpreso, e ao mesmo tempo entusiasmado, agradeci e pedi mais detalhes. Foi nessa época que conhecei um profissional um pouco desestruturado para se dizer ou atuar como médico. Mas, vamos adiante.
Dra. Lucia, minha amiga, me falou de um colega dela, médico também, que parou de fumar e gosta que todos parem. E disse que ele nem ia me cobrar consulta porque foi indicação dela para um amigo (eu). Ele atendia no mesmo hospital que ela. Lá fui eu. Bati à porta do consultório dele e aguardei. Depois de um tempo, bati novamente e mais outra vez. Só então escutei uma voz rouca dizendo:
– Entre !
Entrei, me apresentei e ele sem responder disse:
– Foi a Lúcia que te mandou vir até aqui, não foi ? Pode sentar.
A mesa do médico ficava numa clareira de luz única na sala, toda escura ou em penumbra e eu já comecei achar aquilo estranho. O médico usava barba. Não tenho problema ou preconceito com isso; eu uso cavanhaque. Mas, a barba do médico era densa, eventualmente ouriçada e a aparência do profissional, apesar da roupa branca, era um pouco assustadora. Mas, como se diz…cada um é um. Puxei a cadeira, sentei e começamos a conversar.
– Fuma há muito tempo ?
– 22 anos.
– Tem certeza que quer parar ?
– Bem, eu gosto de fumar, acho relaxante, mas, reconheço que faz mal e meus filhos insistem para eu parar. Acho que devo mesmo não fumar mais. Já decidi. Mas, eu precisava de um facilitador, um método, algo que minimizasse a sensação da falta que o cigarro fará.
– Você gosta de café ?
– Muito, respondi.
– Toma uma cervejinha de vez em quando ?
– Sim.
– Se você quiser parar, acabou o café na sua vida. Nunca mais vai poder beber cerveja. E você vai inchar um pouco. Talvez muito. Eu acho que você não vai conseguir. Poucas pessoas conseguem. Eu parei, não fumo mais. Mas é muito difícil !
– Hum…
– Mas eu tenho uma solução !
– Sim, doutor, estou pronto pra ouvir.
– É só tomar esse remédio aqui por uns meses. Vai ajudar muito e você talvez consiga parar. Mas, é muito difícil !
Olhei para o remédio. Tratava-se de um antidepressivo – Ziban. Já tinha ouvido falar. Ele me apresentou 10 caixas de amostras grátis que havia guardado para mim. Eu agradeci muito, me despedi e levei as caixas embora. Após sair do hospital, joguei na primeira lixeira que encontrei e pensei comigo mesmo: se para parar de fumar eu precisar ficar “daquele jeito”, prefiro continuar fumando.
Dias depois, encontrei a amiga médica e ela me perguntou como foi a consulta. Eu perguntei de forma leve, até sorrindo um pouco: ele é normalzinho ? Ela sorriu e me disse que, depois que parou de fumar ficou um pouco diferente, tem tido até alguns probleminhas, mas, que é ótima pessoa. Entendi, encerrei o assunto e fizemos um lanche. Nunca mais falamos sobre.
Bem, eu queria mesmo parar de fumar. Criei um método próprio e parei sem muita dificuldade. Mas, sem remédios ou privações. Mas, reconheço que algumas pessoas possam necessitar de um apoio medicamentoso temporário para realizar seu propósito.
Esse médico expressa realmente o que tenho visto nos estudos sobre psicanálise. Possivelmente se agarrou ao cigarro como uma muleta referente alguma questão não trabalhada ainda e, deixando essa muleta, passou apresentar vários sintomas – físicos e emocionais – provenientes de algo recalcado. Hoje, com a pouca informação que já aquiri (precisamos estudar a vida toda), gostaria de procura-lo novamente para ajuda-lo com o processo terapêutico. Movimentos com a cabeça e braços, não coadunantes com o diálogo, hoje me dizem que ele apresenta alguma patologia. Como não convivi mais um bom tempo com ele, nem conversamos tanto, ficaria imprecisa minha conclusão sobre um diagnóstico preciso. Mas, faz 21 anos tal evento e quero crer que ele esteja bem. É o que espero.
Quando lembro de fatos como esse de minha vida pregressa, dou ainda mais valor ao trabalho com a psicanálise. Com o diálogo terapêutico com livre associação, a psicanálise vem resgatar entraves que todos – eventualmente – trazemos durante muito tempo e nos esquivamos, conscientemente ou não, de trabalhar e buscar uma evolução emocional que nos garanta melhor qualidade de vida conosco mesmos e com os que nos cercam, em geral. Nesse sentido, concluo que todas as vezes que o excesso de racionalização de termos e variedade de tipos de doenças se faz presente, corremos o risco de enveredar para um caminho burocrático no tratamento, buscando enquadrar o paciente em algo que talvez gostaríamos de tratar. No entanto, sem o sustentáculo teórico e aplicação de conhecimentos de forma comparativa e reflexiva, pode dirigir o tratamento para um achismo desinteressante, sem aproveitar tantas descobertas já feitas e tantas conclusões de estudiosos que podemos relacionar.
