Pessoa com pessoa

Estamos vivendo numa época em que a coisificação é crescente, em que as pessoas são melhor conhecidas por um ou mais números (CPF, Identidade, etc), mais conhecidas também pelos seus hábitos e perfil, inclusive faixa etária e de renda, época em que, conforme nos ensina Zigmmund Baumman, tudo é líquido: o dinheiro, as relações, os empregos ou trabalhos, os sentimentos e tudo mais. Num contexto em que se luta para se preservar baleias, mata atlântica, Amazônia, tartarugas marinhas, macacos de brinco azul, etc, pode-se estar esquecendo da preservação do ser humano. E nada melhor que a ética para que todos lembrem disso.

Relacionando psicanálise com pessoa, sempre precisaremos nos ater ao método, à prática, ao estudo, à prudência,  à técnica e à ética. Ou seja, o psicanlaista pratica ética quando estuda, põe em prática esse estudo, atende a um método testado ou consagrado, utiliza técnica de trabalho, amparada por autores disseminadores e visa resultado que ampare a melhoria da qualidade de vida do paciente.

Recentemente, cerca de um ano, uma jovem senhora – 63 anos – reclamava de afastamento de sua filha de sua convivência. Morando em outro estado há cerca de 10 anos, de uma hora para outra, a tal filha bloqueou a mãe nos contatos telefônicos e redes sociais e impediu seu filho de 8 anos de conviver com a vó – sua mãe. Remontando a história, constata-se que a filha mais velha de uma prole de 3, filha de um casal de dentistas, tomou essa atitude, segundo depoimento dela própria, por orientação ou co-conclusão com sua psicóloga.

Porque a filha desgarrada, que mora em outro estado, não mais atende telefones da mãe nem deixa que o filho de 8 anos o faça ? Na realidade, a primogênita, sempre aparentemente atuante nos estudos e mostrando-se inteligente na pré adolescência, deixou, desde os 5 anos de idade, de ser a preferida, embora nunca tenha sido preterida. Vieram mais dois filhos, um garoto e uma garota. Atualmente, a idade geral é 36 para a mais velha, 31 para o rapaz e 29 para a caçula. Aconteceu alguma coisa que, na infância, pudesse ter marcado a mais velha ?

Três filhos de um casal de dentistas, cuja relação não ia de vento em popa, apresentam características diferentes pois nasceram em momentos de vida diferentes e em contextos também diferenciados. Aos 14 anos, a filha mais velha apresentava muitos sintomas que a qualificavam como “desequilibrada mental”. Consta que o pai pouco ligava, mas, a mãe procurou auxílio na homeopatia, na alopatia, internações, casas espíritas e outras agremiações religiosas, tudo em vão. Até que um médico, já conhecedor do caso -devido às internações – apresentou o tratamento com eletrochoque como uma possível vertente auxiliar e até determinante no tratamento. Houve muita relutância por parte da filha, mas foi o que, à época, a equilibrou.

Seguiu carreiras diferentes dos irmãos, tornou-se vegana, amante de gatos e casou-se com outro vegano, conhecido pela internet, e foram morar juntos em outro estado. E a mãe a visitava, dava-lhe assistência e lhe acompanhava, bem como ao neto. A única explicação dada pela moça de romper com a mãe, foi o convencimento que teve da psicóloga que a atendia que sua mãe usou de uma maneira muito drástica para se livrar da doença da filha. Convencida, a filha cortou relações.

Quando se fala de ética, a lembrança de Kenneth Blanchard e Norman Vincent Peale é proveitosa. Em “O poder da administração ética”, ambos identificam a ação ética com 3 níveis, ou, três perguntas. E assim, galgando cada sim, você conclui se sua ação é ou não ética.

A primeira é: a ação que você praticou ou que vai praticar “é legal ?” ou seja, está na lei? Está no regimento do grupo que participa ? Está entre as regras praticantes, mesmo que intuitivas, entre os que convivem ? Pois é … se a resposta for não, sua ação não é ética. E pára por aí. Mas, se a resposta foi positiva, pode continuar e passar para outro nível, para outra pergunta: “é imparcial ?” Ou seja, se a sua ação fosse praticada por outra pessoa em relação a você, você acharia normal ? Não deixa de ser, isso, uma aplicação de Mateus 7-12 . Ou, faça aos outros aquilo que gostaria que fizesse a você. E se a resposta for não … pode saber: não é ético. Não basta, portanto, ser legal. Se não for imparcial, não caracteriza ação ética. Mas, se for legal e for imparcial, ainda assim é necessária nova validação.

O terceiro nível é quando se pergunta, após agir de tal maneira, “como vou me sentir comigo mesmo ?” . Na realidade, não é tão difícil conseguir um segmento da lei ou de regras que amparem uma ação. Também conseguir comparar com outras ações e identificar imparcialidade é possível. Mas, quando se olha no espelho e, frente a frente consigo mesmo, perguntando como é o sentimento após determinada ação, encontramos um valor não objetivo. Algo que pode, inclusive, alterar uma tomada de decisão. Ao se olhar no espelho na hora do barbear, ou ao se maquiar, percebendo que todos vão olhar em seu rosto identificando sua ação, como fica o sentimento ? Como caminhar a partir daí ? E mais: se sair em todos os jornais, em todas a redes sociais e televisões que aquela ação foi sua ? Como você vai se sentir ?

A ação da terapeuta, ao identificar um pretenso recalcado de sua paciente, a filha do caso acima narrado, acertou em delinear a atitude da paciente? Será que aquele recalque foi realmente o motivo ou origem,  ou foi outro fato, outra situação ? Poderia ser criação comparativa da mente jovem e despreparada – talvez doentia mesmo – da própria moça, filha que alienou a mãe ? O que foi levado ao consciente foi realmente a resposta e a ação consequente foi prudente? Será que trazer à tona para despejar em outro poço, talvez mais fundo, foi evolutivo, foi proveitoso ?

Muitas vezes, o analista lida com mentes com algum grau de perturbação, com alguma dificuldade emocional em graus variados. Nessas circunstâncias o cuidado nem é por caridade, mas, também por ela. O cuidado é por profissionalismo, por proporcionar crescimento do paciente, não retroação a relacionamentos difíceis e por propiciar campo de visão claro, nunca o contrário. A situação acima narrada trata-se de um caso real, acontecido e que demanda, agora, mais dedicação na busca de solução. Pensar no próximo é pensar na humanidade e agir em prol dela é o alvo da ação ética, principalmente no tocante ao psicanalista. Pessoa com pessoa. Gente com gente .  18  07  2023