Conversando consigo mesmo

Normalmente temos conversas com outra ou outras pessoas. A exposição de ideias vem de nosso interior para o exterior. A palavra diálogo pressupõe duas partes, um agente emissor e outro recebedor, mesmo que não consiga receber. No entanto, quando falamos, nossa expressão de voz, de ideias, de vontades e de tudo que há em nosso interior soa, também, aos nossos ouvidos. Embora tenhamos pensado antes, quando da expressão da ideia podemos até estranhá-la… “eu disse isso ?”

            A psicanálise pressupõe um diálogo honesto, provido de técnica e ética (analista) e de verdade (analisando), embora esse último, mesmo em não se expondo por inteiro, pode ser analisado. Será que seria possível, não sob o ponto de vista da censura, mas pelo pressuposto da comparação de situações – anterior e atual – bem como identificação de causas que levaram a determinados comportamentos, o analisado pode caminhar com suas próprias análises ?

            Stanley Keleman considera que sim. Principalmente devido sua abordagem tida como morfológica, ou seja, de estudo integral da reação humana em seu todo, mente e corpo, constata que a consciência própria, adquirida com o tempo, pode guia-lo numa trajetória mais saudável e feliz. Vejamos:  “O estudo da forma humana revela sua história genética e emocional. A forma reflete a natureza dos desafios individuais e como eles afetam o organismo humano….a postura ereta é acompanhada de uma história emocional de vínculos parentais e separações, proximidade e distanciamento, aceitação e rejeição. Uma pessoa pode incorporar a densidade compacta que reflete desafio ou um peito murcho que expressa vergonha. A anatomia humana é, assim, mais do que uma configuração bioquímica; é uma morfologia emocional. Formas anatômicas produzem um conjunto correspondente de sentimentos humanos”. (Keleman, 1992 p.72)

               Na medida que o ser humano, por intermédio da psicoterapia, consegue liberar-se do recalcado, ou seja, consegue dar vazão a algo subterraneamente guardado – que de um modo geral não sabe a origem ou o que está encoberto – pode libertar-se também de comportamentos e sentimentos que o desviam de uma vida feliz.

            O treinamento para o caminhar sozinho é a psicanálise. Esse treinamento é facilitado pelo analista, mas, traçado pelo próprio analisando e pressupõe uma parceria de crescimento. O par analítico é, portanto, uma parceria de busca de crescimento do paciente para superação de algo, no ritmo que consegue e que efetivamente deseja. E o analista precisa incentivar a persistência do analisando, sendo ele próprio, muito persistente. E, claro, o analista cresce também nesse processo.

            Essa busca conjunta pressupõe condicionantes. Como diz Paulo Freire, para se compreender o outro (o aprendiz) é preciso ir aonde ele está. Chegar ao lugar mental onde se encontra o outro é um processo. Esse processo é tão rápido quanto for a desenvoltura de ambos, no par analítico. O analista precisa de um esforço – amparado pelo conhecimento, pela dedicação, pela experiência e capacidade de observação e percepção.  O paciente precisa querer, precisa estar motivado para isso e precisa enxergar ganhos no processo. Quando se fala em parceria do par analítico, constata-se possibilidade ganhos de ambos. E tudo isso envolve empatia, entrelaçamento de ideias e comutação de esforços. Daí o chamado ato de transferência.

            Keleman prevê a desestruturação de paradigmas para posterior estruturação. E a confiança para que isso ocorra é gradativamente conseguida. Essa confiança, o fato de estar à vontade para exposição, a identificação do analista como pessoa adequada e que entende  os pontos de vista do analisado formam um conjunto denominado transferência. Muitas vezes, nesse processo, há uma sabotagem da verdade dos fatos, dos sentimentos, uma ocultação mesmo – de forma inconsciente- por parte do analisando mas que pode até deixar mais facilidade para o analista assim perceber.

            Esse movimento em torno da problemática estudada, buscando o saneamento do sofrimento (ou que seja apenas meras dificuldades) do analisando, também é exercido pelo analista. Essa contratransferência é necessária para que haja cumplicidade de propósitos e se promova um ambiente de mútua abertura. Com certeza isso não implica em exposição do analista e explicitação de suas condições ao analisado, mas, a predisposição de responder eventualmente positivamente a questões que também o cercam, com pessoa, faz parte do processo.

            Precisamos reconhecer a humanidade entre as pessoas e caminhar. Mesmo que com vagar. Mas, de forma consciente de que há um propósito e que podemos correr riscos. A busca de estudos que favoreçam o crescimento do ser humano tem sido uma constante nas livrarias físicas e virtuais, nos tratados sobre quase tudo, nas páginas da internet e até nas conversas informais. Penso sempre que é um movimento positivo, adaptativo e que, se bem dirigido, pode gerar resultados fantásticos e de grande continuidade. Sigamos !  18 07 2023