Vivemos num mundo onde as expectativas são quase sempre muito ligadas ao desejo. Ao desejo de possuir bens, de estar em prazer com pessoas, com bens materiais, com poder e autoridade. Queremos nossa satisfação garantida ou … dinheiro de volta (ou qualquer outra compensação) .
Fico me perguntando se o mundo sempre foi assim. Se estudarmos a história brasileira, com os conchavos políticos próximo à abolição da escravatura, declaração de independência e proclamação da república, veremos que os interesses movem o ser humano para as realizações. Essas realizações, de ordem pública, altaneiras e de benefício geral à população, normalmente estão em percentual bem inferior às demais, produto de vaidade e autovalorização. Não vemos isso na história de alguns outros países, mas, na de muitos, com certeza.
Por isso fica a questão: é realmente a vaidade que transforma o mundo ? Pensando no lado questionável da vaidade, na qual o único vetor é o de fortalecimento do ego (egocentrismo) e atendimento a prazeres e satisfações pessoais, penso que o mundo, assim se desenvolvendo, tende ao declínio nas relações.
E realmente, como constatamos na atualidade, relações são signos de pouquíssima estabilidade. Isso envolve trabalho, família, amigos, vizinhança, colegas de viagem, etc. Um amigo já me disse uma vez: “onde tem o homem, tem problema, tem briga”. Esse meu amigo, morador do campo (da roça!), tem, ao meu ver, muita sabedoria. Por essa e outras várias observações sobre comportamento, vejo que o contato e vivência com o bucólico o instrui mais que muitas escolas.
E vemos também que, quando uma personalidade é contrariada, montes se movem em busca de represália. Se isso já é algo negativo, imagine se usarmos o termo “vingança” ! Isso também não é novo. Há alguns condimentos que rodeiam a vaidade, como a inveja, a tirania, frieza e outros itens que normalmente estão na prateleira do vaidoso. Se o contrariado é dotado de poder, normalmente este é usado para “destruir” quem lhe destruiu o sonho (ou vontade, por assim dizer). A acentuação desses aspectos, diria exacerbação, é que acaba por ser percebida como anomalia e se encaixa em possibilidade de tratamento (psicoterapia).
Toda essa questão – jogo de interesses, relacionamentos comerciais e institucionais predatórios, encaminhamento de corrupção como base de relações de governo – pode ser minimizada, em números de ocorrência, em sociedades estabilizadas e com boa evolução educacional ? Penso que sim. Mas, a educação a que me refiro é além da escolar. Envolve, ao meu ver, cultura e seu estudo e evolução, estrutura do cognitivo, não em forma de rotulação ou modelagem, mas, esclarecimento analítico e comparativo. Algumas gerações, todas imbuídas do mesmo propósito, são necessárias para a consecução de tal fim.
Na história da humanidade, o misticismo tomou, muitas vezes, o lugar da ciência. O inexplicável, ao invés de busca de compreensão, era objeto de simplificação de resposta, direcionada a uma divindade, do bem ou do mal. E aí surgiram nas crenças populares os anjos (em algumas representações como pessoas com asas), seres maldosos , demônios, bruxas e bruxos (haviam os bons também). Na medida em que se conseguia progresso nas explicações do que, há pouco tempo, considerava-se fenômeno “divino” ou “malévolo”, muitas crenças deixaram de se expandir e a maioria, no mundo de hoje, nem existe mais.
No filme “As bruxas de Salén” (1996), o enredo mostra que, numa comunidade onde a obediência/comprometimento com a divindade era mais importante que verdades e comprovações, todo uma família e adjacências foram destruídas por manipulação pessoal. No filme, a vaidade de se conseguir o amor de um homem foi um imperativo muito forte para a jovem que, não conseguindo seu intento, vingou-se. Passou-se por uma rezadeira que via e sentia “coisas” do além e identificou falsamente, para a comunidade, no rapaz que não cedeu a ela, uma figura demoníaca. Filme triste, mas que emerge à percepção de como uma mente doentia pode manipular outros e destruir, mesmo, estruturas positivas e equilibradas de terceiros, por um capricho, por uma fixação em algo não prudente de se concretizar. Precisamos aprender muito sobre várias questões na vida. Precisamos estar dispostos para tal porque os aprendizados cada vez mais nos preparam para desafios. Nossa mente, em contato com realidades diversas pode apresentar reações mais maduras na medida aproveitamos das vivências e análises já feitas. É possível que cada nova situação, por mais semelhante que pareça ser em relação a outra, possa ter um pequeno traço diferente e que faz com que nossa ação seja diferente no caso em comento. O “Vigiai e Orai” da Biblia pode também ser descrito como …perceba e analise com equilíbrio (com o devido respeito à comparação de texto bíblico).
