Sonhos 06 06 2023

Muitas questões nos confundem na nossa trajetória de vida. A mente é ainda algo para ser muito pesquisado, analisado e nos possibilitar descobertas que nem se imagina, tamanha a capacidade instalada nos arquivos cerebrais, como afirmam os cientistas da área. Um dos segmentos da mente, cujo conhecimento é ainda limitado, é a decifração dos sonhos.

            Muitas variações e tantos caminhos para o pensamento nos fazem perder o foco do que estudamos, do que pesquisamos ou simplesmente do que pensamos. É como se um labirinto se formasse no conjunto de pensamentos. As derivações são ora conexas ora desconexas, mas, mudam o foco do pensamento. Os mecanismos de controle, como vemos o papel do superego, são diferentes nas pessoas. Mas, há técnicas para se identificar foco, para se alinhar ideias, para não fugir ao objetivo, entre outros. Nos sonhos, no entanto, essas possibilidades ainda não foram constatadas. O estado de sono -seja ele o REM ou outro – afasta a possibilidade de controle da própria pessoa. O pensamento, a mente, o funcionamento do inconsciente segue lógica própria sem amarras sociais e sem limitações de costumes, pudor ou outras formas de controle.

Aldous Huxley, em “As Portas da Percepção”, de 1954, informa que o cérebro elimina mais que produz, para ter objetividade em quantidade de coisas que consegue visualizar e controlar. Será que nos sonhos essa eliminação também é exercida ? Será que fica tudo à deriva ? Se não, as áreas que poderiam mostrar perigo também são diferentes e a fluidez de ideias e desenvolvimentos de linhas mentais podem ter derivações inimagináveis.

Freud dá muito valor aos sonhos e a análise deles. E propõe ao analisar o conteúdo latente – diferente do conteúdo manifesto, que refere-se ao que foi essencialmente lembrado ao acordar – separadamente nos diversos símbolos apresentados. Analisando os símbolos de forma isolada, segundo Freud, pode ser montado um quebra-cabeça do caminho percorrido pelo id e verificar qual é o conteúdo recalcado.

Freud diz que os símbolos tem que ser os categorizados pelo paciente, não os comuns a todas as pessoas, porque o valor, a importância e a representação de um símbolo é, em geral, diferente em cada um. Penso que isso é razoável e torna mais clara uma possibilidade de interpretação do sonho. Trabalha-se com o material pessoal do paciente, com seus valores. Mas, há uma questão que ainda não vi levantada: e os valores do analista ? E as experiências e vivências do psicanalista, sua escala de valores e sua forma exclusiva de interpretar, com base em um conjunto que inclui, inclusive, suas decepções, relacionamentos, aprendizados, angústias, etc

Penso que interpretar sonhos pode ser importante, mas, pode ser mais hermético que relevante, na medida que a subjetividade é fator presente na explicitação do paciente, na visão do psicanalista e na sua capacidade de ir até onde o paciente está (Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, “… ir aonde o aprendiz está …”) em termos de pensamento e perspectivas.

Ao lidarmos com uma pessoa que procura uma psicanálise e constata alguma fragilidade (ou muita) buscando ajuda, o cuidado deve ser no máximo. A busca de não errar deve trafegar também com a possibilidade de acertar em cheio, colaborando para a melhor qualidade de vida do paciente, bem como de suas perspectivas.

Quando ouvimos uma pessoa narrar seu sonho, acaba que corremos o risco de nos colocamos um pouco no lugar dela (e se eu sonhasse com isso ? Porque eu sonharia com isso ? O que eu faria nesse sonho ?). Embora esse não seja o foco do psicanalista. Nossa conduta é de absoluta neutralidade e nunca vivência. Mas, que esse risco ocorre, claro que ocorre. E cada detalhe desse sonho é fundamental. Freud não acredita no “por acaso” – nem eu . Mas, não adianta, ao meu ver, conhecer os detalhes se não conhecer o paciente. Exatamente para, como foi dito acima, identificar símbolos com os valores e referências do individuo.

Em Onze Contos Peregrinos, Gabriel Garcia Marques conta uma estória de uma governanta que era contratada mais pelos seus dotes de interpretar sonhos que pelos serviços domésticos. Eventualmente, os próprios patrões faziam o cardápio desejado por ela. Não era tida como uma empregada, mas, uma acompanhante com dons especiais. O conto intitulado “Alugo-me para sonhar” relata que, a partir das interpretações da governanta, a família mudava sua forma e até seus costumes, dada a credibilidade da análise da senhorita de meia idade.

Os sonhos nos distanciam do mundo concreto que vivemos. Constituem literalmente uma viagem, seja ao passado, ao futuro, ao presente, a coisas e pessoas com as quais, no sonho, pode ter uma relação diferente do que se tem no mundo acordado.

E sonhar é bom ? Eu diria que sim. Não deixa de ser uma experiência, mesmo que algumas sejam um tanto traumatizantes, pesadelos. Mas, no final, quando se acorda, se livra do perigo. Pode ser assustador, mas, também engraçado. E sempre curioso. Há quem diga que a vida pode ser um grande sonho e que um dia acordaremos. É uma experiência fantástica ao pensarmos assim. E ao mesmo tempo perguntamos: o que nos espera ao acordar ? Vamos aguardar e deixar de fazer da vida um pesadelo, seja para nós, seja para outros. Bons sonhos para todos nós !